3.6.08
o mar.
Andávamos pelas ruas largas corredores, esvaziadas pelo último capítulo da novela, acompanhados por uma brisa cansada dessas que só em perto do mar. Mas me tomou súbita uma tristeza de que eu não soube medir tamanho. E no bairro do Leblon às quinze para as nove da noite, um pouco afastada e com os braços já cruzados, numa caminhada quase inerte sem a pretensão de um destino, tive de reter os acontecimentos nos meus olhos para que eu então não chorasse. Meus passos se distinguiam largos mas a cada um eu sentia puxar como que um fio fino no fundo dos meus pulmões. E à medida em que eu as percorria, minha tristeza fez preencher as esquinas e as avenidas e as bancas de jornal, as varandas chiques e a brisa e as lojas fechando. Tornei tudo parte, pedaço, com consistência tamanha que desmanchando-se pouco depois do momento em que eu já não alcançava mais com o olhar. Percorri a dimensão louca dos meus segredos, desejos, que me invadiram então imensos e devoradores porque sem nomes. Atravessada por todos os monstrinhos da existência eu não entendia como era possível a constância do meu andar e a única vez em que não me surpreendi foi quando por pouco tropecei. Além disso eu carregava a falta de horas bem dormidas da noite anterior, embaçando assim a tristeza emergente com uma névoa fria de quem tem sono. Nosso movimento se estendia indefinidamente: a amplitude de tudo aquilo mudava de forma e continuava a mesma até o momento em que não agüentei e pedi, simulando uma voz distraída, para que começássemos a nos reaproximar do carro de que até então nos distanciávamos. A resposta do meu pai: pela praia. Pela praia. E tomando a direita na transversal mais próxima, em poucos passos surgiu no meio da minha noite triste e enorme o mar. Encarei-o assustada porque a princípio só soube distinguir o branco da espuma das ondas, e só aos poucos é que soube dar forma a tudo aquilo. Não foi preciso muito para que eu percebesse que o que então se formava diante de mim era de uma natureza abismalmente diferente daquela da minha tristeza, e mesmo que eu talvez até tenha tentado, não pude transferir nem minimamente qualquer coisa minha para o mar. Apenas vi: o mar estava muito bravo e as ondas se faziam muito altas, fortes; enrolavam-se para dentro de si mesmas, agarravam-se, desapareciam. Tive medo do mar e continuei a olhá-lo. Esvaziei-me diante do mar como as ruas diante do último capítulo da novela. Perdi os sentimentos tão precisamente certos que me preencheram (quase os vi arrastando-se pela areia, mas isso já é mentira). Me entreguei ao mar. Agradeci ao mar. Deixei.
Leda. ; 16:37
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12.4.08
Três meninos com cata-vento.
Ainda que a mais nova sorrisse mais
os três usavam da mesma alegria
pela inédita concretização do movimento do ar.
Leda. ; 23:34
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17.3.08
Era impossível colocar-se ante o freio-de-mão e soltá-lo. Ainda que, mesmo, a possibilidade de ir a qualquer lugar a qualquer hora, a absoluta resignação de ir, somente ir, sem que seja necessária a definição discreta de um onde, e ainda o barulho desesperado do motor quando desperto, furioso ao converter a rua em quilômetros na velocidade tão descabida para os passos longos de quem vai a pé, tudo isso parecia limitá-la a tal ponto que a vaga idéia de apanhar um carro e utilizar-se dele para sua locomoção diária causava já as primeiras náuseas do que se chamaria enjôo, se persistisse. Além, encerrar-se entre quatro estreitas paredes finas e enxergar o mundo apenas depois das janelas de vidro semi-opaco (e arregaçá-las a partir do botão invariavelmente aceso do lado esquerdo, como se a falta de janelas trouxesse o ar fresco residente das avenidas para dentro, como se houvesse na ausência do vidro qualquer possibilidade de contato direto com o mundo do qual já se havia abismalmente partido no momento em que as portas travaram-se automaticamente) parecia-lhe de um mal gosto quase dolorido – frio. Andava assim com os dois pés, um após o outro numa sucessão previsível, sem as opções de ar condicionado ou aquecedor.
Leda. ; 01:44
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4.3.08
inútil beleza
a tudo perdida
por delicadeza
perdi minha vida
r.
Tendo a ser extremamente agressiva com o chão. Meu pisar, que queria leve, precipita-se numa grosseria incalculada - só a dor dura do encontro, que segue o primeiro passo, pode me fazer lamentar ainda uma vez a delicadeza que não tive, mas não a tempo de descarregar a força que o impulso de um passo cedeu ao próximo. Ando assim descompassada, atrasada em relação à violência de meus pés; devo a ela o já eternamente torto de meu terceiro dedo esquerdo (que quebrou).
Leda. ; 22:55
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13.2.08
Exercício.
Senti um calafrio que atravessou a extensão de minha espinha ao acordar hoje. Soube perder o sonho que tive: não de uma só vez, mas aos poucos, sentindo cada imagem e palavra antes de esquecê-las. Arregalei meus olhos algumas vezes para me confirmar no mesmo lugar em que estava; estando, fiz-me o suficiente para levantar e olhar as horas. Mas encaixar o tempo do dia, que atuava quase violentamente sobre mim, no horário abstrato e inócuo que vi no canto direito do computador exigiu tanto de mim que por pouco resisti aos chamados silenciosos da minha cama desfeita. Desci a escada varrendo de mim o resto do meu sonho - devo ter reciclado despercebidamente alguns pedaços, pois ainda sinto o peso discreto das coisas de que não me lembro bem. Me ocorreu outro dia que o meu maior doer da velhice será a perda da memória: já sinto o aperto físico do não-lembrar (mais do que o de esquecer), a angústia de avistar ao longe a lembrança, sabê-la existente e aqui, e a impossibilidade de alcançá-la - como se, entre mim e ela, milhares de ínfimos cacos de vidros flutuassem, obstruindo qualquer tentativa, tirando de mim o que sou eu. Hoje achei que fossem as minhas lembranças que sustentam meus pés quando piso; depois percebi como ofendi o chão abaixo de mim ao atribuir a substantivos abstratos a qualidade de apoio tão absolutamente real que apenas uma superfície plana e sensível ao toque dos meus dedos dos pés pode proporcionar.
Leda. ; 21:29
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27.1.08
o limite que o peixe quase tem é aquele que o mar quase não tem.
Leda. ; 17:11
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19.1.08
Hesito em falar num restaurante cheio de gente, pois temo alimentar a massa amorfa das conversas simultâneas. Ouvir todas ao mesmo tempo é tirar das palavras a propriedade significativa que ela têm, deixando ficar o ruído solitário do significante. O amontoado de significantes, separado assim de seu inseparável significado, chega aos meus ouvidos e é preciso afirmar repetidas vezes que continuo existindo em meio a tanto.
Leda. ; 16:12
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5.1.08
Cru.
Ele se repartia internamente em um grupo de caixinhas quadradas, onde guardava suas coisas, de acordo com critérios criados em pensamentos vagos com o olhar perdido na janela do ônibus. Era parecido com um mendigo e suas diversas sacolinhas plásticas coloridas. Idéias de doença ele guardava no dedão do pé, o mais longe possível, pra correr menos risco de pensar nelas de novo.
Pré-aquecido.
A calçada adivinhava os seus passos um por um, antes que ele ousasse tentar desviar do caminho que tinha começado. Agarrava-se ao óbvio quando não tinha chão, e não gostava de metáforas. Mas esse não-gostar não cabia direito na caixa de dentro da cabeça, de modo que às vezes se via quase sem querer uns pedaços de caixinha transbordando para fora da nuca. Era pequeno e nada que chamasse a atenção. Os cabelos encaracolando caíam com freqüência no ralo do banheiro quando o banho.
Assado.
Chuva não molha pensamento. O ônibus deprimia a rua que deprimia as mãos que enrugavam. Ele contornava a formiga que passava molhada na borda do meio-fio. E perdia, entre os dedos, a avenida. Gritava porque tinha perdido as vírgulas. Era triste, mas não o suficiente para lágrimas ou muco. Não muito. Disfarçava quando a chuva nos sapatos reclama slépt slépt slépt à medida que os passos. Chuva molha pensamento.
Passado do ponto.
O dedão do pé continua no lugar do dedão do pé. Não fala muito mais porque as palavras costumam cair pesadas de sua boca, sujando o chão. Limpar o chão dá trabalho. Não tanto. Quando não há jeito, fala, mas desculpa-se pois seu pensamento está sempre atrasado em relação às palavras que diz. Não é que diga rápido demais: o pensamento que, num arrastar preguiçoso, não alcança o dizer, e normalmente acaba por se juntar às idéias do dedão do pé.
Queimado.
Quando muito, corta com tesoura comprida as folhas podres no gramado do quintal da frente. Esmigalha com dois dedos os pedaços de pão que não come. Se no restaurante, senta-se com cuidado com medo da quantidade ameaçadora de conversas simultâneas. Ainda não tem tantos anos. Tira o casaco no calor. À noite, dorme.
Leda. ; 21:26
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14.12.07
Atingimos o ápice do prazer quando a realização de um desejo ocorre antes do desejo existir. Quando só percebemos nosso desejo no momento em que tocamos o objeto desejado, e então não há cisão alguma entre querer e ter. Não é necessário qualquer sacrifício para alcançarmos o que queremos, porque só passamos a querer quando alcançamos. Como se o desejo fosse uma evocação do objeto, e o objeto uma enunciação do desejo.
Leda. ; 21:37
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19.6.07
Poetas-Santos de Xiva (séc. X - XII)
DASIMAIA
A esse mistério
(que traz a si mesmo dentro)
Indiferente a diferenças
Rezo, Senhor.
Leda. ; 02:20
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22.4.07
(entrar é a única maneira de sair:
vou perder o mundo dentro da minha mão.)
Leda. ; 16:04
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29.3.07
(29/03/02)
Tudo tremelicando, as palavras disformes na boca, o quê? Alguma coisa além de alguma coisa? Acordei precipitada, ralei o cotovelo, fui antes de mim; fiquei lá deitada na cama, fingindo estar em outro lugar. Não ouço falar: nem me ouço, em meio a tão confusa de mim que estou. Às vezes confundo estar e ser e então: esqueço onde sou, não sei quem estou. Preciso me explicar? O terrível gosto de acordar existindo na minha boca, antes que eu possa ter certeza de que acordei; mas se tudo me confirma, de que posso duvidar? Em que parte de mim eu não creio, se em tudo posso tocar, apertar, beliscar? Tudo tão absurdo, descabido. Sei que sonhei, mas já perdi o sonho ao esticar os braços para tentar pegá-lo, o vi sumindo no milésimo de segundo em que levantei e peguei aleatoriamente uma roupa. Perdida nas metades. Me faltam essências.
Leda. ; 14:40
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A realidade e a imagem.
Manuel Bandeira
O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva
E desce refletivo na poça de lama no pátio
Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa
Quatro pombas passeiam
Leda. ; 14:28
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27.2.07
Contradigo tudo o que digo porque vivo.
Leda. ; 13:28
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18.2.07
Esquinas.
Em cada esquina, há uma puta. Em cada puta, uma lembraça. Resquícios do batom pintado às pressas porque não se tem o tempo; pedaços de umas unhas mal roídas reformadas com esmalte; um dia que nunca vai passar das seis da tarde. Cada puta se devora por dentro enquanto inventa a esquina: começos do lápis tentando contornar o olhar; suores disfarçados de desodorante barato; silhueta européia para seios tristemente brasileiros. Em cada cigarro há uma puta. Chupa-se o ar quando não faz mais diferença; perde-se o dia no impossível de alcançá-lo; quebra-se o salto com o pé saindo fora. Cinderelas borralheiras elefantas poliglotas; amores tristes confundidos dentre as putas que me olham que nos olham que te olham. Em cada esquina, há uma puta. Vida encaixada entre os lábios; marca de dente na boca; mancha de leite na roupa; susto de um resto de idéia. Perde-se o calor, perde-se a vontade, perde-se o dinheiro, ganha-se o tempo. Bêbados na Rua Augusta que raspam com a mão no vento. Uma espécie de saudade da palavra não dita de todas as putas cansadas e um pedaço de batom jogado; meio-fio rasgado; cílio despedaçado. Uma puta acentuada sabe sorrir com o canto do lábio mas o nariz se pronuncia no momento em que ela se faz solitária. Gente que esquece o relógio na mesa do bar; loucos que comem os restos guardados no mar; rimas que fazem sentido só por um momento. Em cada lembrança, há uma puta. Aperta, desaperta, reaperta. Em cada puta, há uma esquina.
Leda. ; 01:30
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