27.1.08
o limite que o peixe quase tem é aquele que o mar quase não tem.
Leda. ; 17:11
19.1.08
Hesito em falar num restaurante cheio de gente, pois temo alimentar a massa amorfa das conversas simultâneas. Ouvir todas ao mesmo tempo é tirar das palavras a propriedade significativa que ela têm, deixando ficar o ruído solitário do significante. O amontoado de significantes, separado assim de seu inseparável significado, chega aos meus ouvidos e é preciso afirmar repetidas vezes que continuo existindo em meio a tanto.
Leda. ; 16:12
5.1.08
Cru.
Ele se repartia internamente em um grupo de caixinhas quadradas, onde guardava suas coisas, de acordo com critérios criados em pensamentos vagos com o olhar perdido na janela do ônibus. Era parecido com um mendigo e suas diversas sacolinhas plásticas coloridas. Idéias de doença ele guardava no dedão do pé, o mais longe possível, pra correr menos risco de pensar nelas de novo.
Pré-aquecido.
A calçada adivinhava os seus passos um por um, antes que ele ousasse tentar desviar do caminho que tinha começado. Agarrava-se ao óbvio quando não tinha chão, e não gostava de metáforas. Mas esse não-gostar não cabia direito na caixa de dentro da cabeça, de modo que às vezes se via quase sem querer uns pedaços de caixinha transbordando para fora da nuca. Era pequeno e nada que chamasse a atenção. Os cabelos encaracolando caíam com freqüência no ralo do banheiro quando o banho.
Assado.
Chuva não molha pensamento. O ônibus deprimia a rua que deprimia as mãos que enrugavam. Ele contornava a formiga que passava molhada na borda do meio-fio. E perdia, entre os dedos, a avenida. Gritava porque tinha perdido as vírgulas. Era triste, mas não o suficiente para lágrimas ou muco. Não muito. Disfarçava quando a chuva nos sapatos reclama slépt slépt slépt à medida que os passos. Chuva molha pensamento.
Passado do ponto.
O dedão do pé continua no lugar do dedão do pé. Não fala muito mais porque as palavras costumam cair pesadas de sua boca, sujando o chão. Limpar o chão dá trabalho. Não tanto. Quando não há jeito, fala, mas desculpa-se pois seu pensamento está sempre atrasado em relação às palavras que diz. Não é que diga rápido demais: o pensamento que, num arrastar preguiçoso, não alcança o dizer, e normalmente acaba por se juntar às idéias do dedão do pé.
Queimado.
Quando muito, corta com tesoura comprida as folhas podres no gramado do quintal da frente. Esmigalha com dois dedos os pedaços de pão que não come. Se no restaurante, senta-se com cuidado com medo da quantidade ameaçadora de conversas simultâneas. Ainda não tem tantos anos. Tira o casaco no calor. À noite, dorme.
Leda. ; 21:26
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